quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

  
                Em “Ciência e Comportamento Humano” Skinner definiu agências de controle como grupos dentro de um grupo maior que controlam a programação e a efetivação de consequências para certos comportamentos. Qualquer que seja o grupo, qualquer que seja seu tamanho, esse grupo exerce o controle sobre seus membros principalmente por meio de seu poder de reforçar e de punir, de acordo com regras, relações condicionais entre comportamentos e consequências, que definem o grupo.
                Dito isso, vejamos um bom exercício para os interessados em análise do comportamento.
1.       Quais as relações entre os conceitos de “agência de controle” de Skinner  e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar” de Foucault?.

2.       Compare as frases:
 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”

FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”





Skinner, o Governo e a necessidade de ciscar para dentro.


                Recentemente Diego Manzano Fernandes (Perfil no Facebook) instou analistas do comportamento a buscar relações entre avanços na Ciência Política nos últimos 100 anos e o que Skinner publicou sobre o Governo. A preocupação é pertinente. Ao especificar que o comportamento humano é função de variáveis que dependem da filogênese (espécie), ontogênese (indivíduo) e da cultura, Skinner deu muita ênfase ao desenvolvimento do comportamento de indivíduos. Contudo, em “Ciência e Comportamento Humano” boa parte do livro trata de questões que envolvem o terceiro nível de seleção, o nível cultural, mas o que seria uma psicologia social behaviorista nunca realmente se desenvolveu.

É do interesse de todos que a análise do comportamento se desenvolva em direção a todas as ciências com a quais faz fronteira, das biológicas às sociais. Mas é fundamental que esse desenvolvimento ocorra “ciscando para dentro”, com um aumento na abrangência da teoria, e não “ciscando para fora”, com áreas da análise do comportamento sendo “cooptadas” por outras linguagens teóricas.

                A cooptação tende a ocorrer sempre que há a aproximação com teorias já estabelecidas, com mais prestígio e tradição. Na interface da economia com a psicologia os estudos analítico-comportamentais sobre o comportamento do consumidor são absorvidos pelos estudos da “psicologia” do consumidor de tal forma que hoje “economia comportamental” em verdade é “economia cognitiva”, com dois Premio Nobel no bolso em menos de 20 anos.

                Na área de desenvolvimento atípico do comportamento o sucesso ao lidar com o autismo levou a um resultado semelhante. Hoje os melhores grupos da análise do comportamento adaptaram a teoria para falar de comportamento e cognição como processos diferentes, adequando-se à linguagem de outras disciplinas mais tradicionais na área.

                Para alguns autores já estamos na quarta onda das terapias comportamentais. A preocupação de Aaron J. Bronwnstein com a possibilidade de análise comportamental de relações comportamento-comportamento abriu o caminho para o desenvolvimento do contextualismo de Hayes e colaboradores, uma carta branca para o “cognitivismo-comportamental”.


                Estão esboçados acima três exemplos do que acontece com a teoria quando se cisca para fora. Se a tendência continuar veremos a análise do comportamento, que não se restringe ao que Skinner escreveu em meados do século passado (teorias são resultado de comportamentos, e como tal são suscetíveis às consequências), juntar-se a outros avanços da ciência natural sob ataque das vanguardas do atraso, os “criacionistas”. Alegar que os escritos de Skinner não podem virar doutrina não pode ser desculpa para negar na prática a visão da psicologia como ciência natural. Seriam os “cognitivo-comportamentais” os nossos criacionistas?

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

Download gratuito dos volumes 1 e 2 de Trends in Behavior Analysis .

“Brazil has the largest number of undergraduate professional courses in Psychology in the world, so far more than 220. Of those, most offer Behavior Analysis courses, some only introductory disciplines, others a full training including practical work in the field. About 30 universities offer graduate courses, both basic and applied, with 15 of them leading to the PhD. This volume of activity, production and spreading of knowledge, has been going on for 55 years, since Professor Fred S. Keller went to the University of Sao Paulo as a Fulbright Scholar in 1961. Everything considered, Brazil is second only to the United States of America in both number of researchers and of publications on Behavior Analysis.
All that notwithstanding, Brazilians are underrepresented in citations. That is understandable when we publish in Portuguese. Only people in Portugal (Europe), Angola, Mozambique, Cabo Verde (Africa), Timor East, Goa and Macau (Asia) can read what we publish in our common language (for the Asians, usually their second language). But Brazilians are also underrepresented even when publishing in English in major Behavior Analysis periodicals and books published in the US. Even Brazilian authors publishing there undercite Brazilian researchers. Citing is behavior, under the infuence of all variables that infuence choice. Having no way of directly control the environment of authors, we can at least enrich that environment. Trends in Behavior Analysis, Volume 1.01 is here offered online, for download, as an opportunity to make more of the Brazilian production available internationally.”




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Agências de controle como estruturas de poder.

Um bom exercício para os alunos de análise do comportamento: as relações entre os conceitos de “agência de controle” e de “estruturas de poder erigidas para reprimir e domesticar”.

E entre as frases

 “as regras da cultura são descobertas pela observação de relações condicionais entre antecedentes, comportamento e consequências”
 e
“A ordem é ao mesmo tempo aquilo que se oferece nas coisas como sua lei interior, a rede secreta segundo a qual elas se olham de algum modo umas às outras e aquilo que só existe através do crivo de um olhar, de uma atenção, de uma linguagem; e é somente nas casas brancas desse quadriculado que ela se manifesta em profundidade como já presente, esperando em silêncio o momento de ser enunciada. ”
FOUCAULT, M., As palavras e as coisas. Trad. S. T. Muchail, São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. XVI


“Naqueles dias, estava terminando de ler um dos amenos e sofísticos ensaios de Michel Foucault em que, com seu brilhantismo habitual, o filósofo francês afirmava que, assim como a sexualidade, a psiquiatria, a religião, a justiça e a linguagem, o ensino sempre fora, no mundo ocidental, uma das “estruturas de poder” erigidas para reprimir e domesticar o corpo social, instalando sutis mas eficazes formas de sujeição e alienação, a fim de garantir a perpetuação dos privilégios e o controle do poder dos grupos sociais dominantes.”



O conceito de rede de relações entre os membros do grupo é mais antigo que qualquer abordagem na psicologia ou nas ciências sociais. Um texto de cerca de 1600 é muito conhecido, de John Donne.



http://jctodorov.blogspot.com.br/2017/04/nao-pergunte-por-quem-os-sinos-dobram.html


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

O "comportamento" das Agências de Controle também é selecionado pelas consequências desse controle.

              Donald Trump quer deportar para seus países de origem imigrantes ilegais que chegaram aos Estados Unidos quando eram crianças, trazidos por seus pais e educados nos Estado Unidos. Deportar para onde? Para o país de seus pais? Não é seu país, não foram educados lá, sabem de cor o hino nacional americano, juram a bandeira de treze listras. Mas hipocritamente os adeptos da supremacia branca argumentam que a lei é essa, devem ser deportados porque são imigrantes ilegais. O jornalista David Leonhardt, no New York Times, mostra a falácia desse argumento. Seria simplesmente impossível para o Estado fazer cumprir sempre todas as leis. Há uma relação custo-benefício a ser considerada. No caso dos jovens americanos de origem latino-americana o custo do sofrimento humano seria enorme, incomensurável.

Na visão da Análise do Comportamento as interações na sociedade são reguladas por vários tipos de Agência de Controle, cada uma encarregada de certos tipos de relações condicionais. As interações melhor acompanhadas são aquelas nas quais as transgressões são apontadas de imediato pelos próprios envolvidos, como é o caso das refeições em família – comer de boca aberta é punido no ato pelos demais participantes da mesa. Quando o controle depende de agências formais, como o Poder Judiciário, entra em cena a relação custo-benefício. Segundo pesquisas da Economia a corrupção na sociedade envolve um custo tal para o Estado que não há como se prever sua erradicação; a corrupção pode ser controlada, mas nunca será extinta.

              O que fazer quando o controle direto pela Agência, como a religião, por exemplo, nem sempre, ou quase nunca, é possível? Internar o controle via regras. Não funciona muito bem, mas dá ao Agente a noção de que está fazendo o que deve ser feito. Só quem foi aluno de escola maternal da igreja sabe o que é ter medo do indizível, do perigo dos “maus pensamentos”. A crença no poder regulador dessas regras e valores não existe apenas na educação e na religião (e por consequência na família). Li também no jornal de hoje, o Correio Braziliense, que o Exército Brasileiro está preocupado com os militares temporários, que servem um máximo de oito anos e depois têm dificuldade de serem aproveitados em empregos do mercado. Muitos são tentados pelas gangues criminosas que assolam o país, cobiçados exatamente pelas habilidades que o Exército ensinou.  Eis o que o jornal publicou sobre o que o exército faz para prevenir a adesão às gangues:

              “Valores. De acordo com o Exército Brasileiro, durante o ano de serviço militar obrigatório, e nas escolas militares, são ensinados valores para afastar os integrantes da força do mundo do crime. Com foco em sua formação, são desenvolvidas atividades que incentivam o patriotismo, civismo, amor à pátria, solidariedade, entusiasmo, determinação e confiança. Para a vida civil, após deixar o Exército Brasileiro, são destacadas ações que valorizam a honestidade, apego à verdade, disciplina, respeito aos superiores e às autoridades, dedicação, probidade, lealdade e cumprimento às leis. ”

              Regras, auto regras e valores transmitidos via comportamento verbal, são eficazes enquanto não contrastam com contingencias do ambiente no presente. Seria mais eficaz se o exército primeiro treinasse o soldado para exercer funções com demanda no mercado e só o desligasse depois de passar por fase de experiência no emprego civil. 


              Voltando à “desamericanização” dos latinos, grande objetivo dos supremacistas da raça branca: o absurdo é tão grande que os netos e bisnetos de imigrantes legais e ilegais provavelmente não vão permitir que aconteça.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Definição de ambiente acolhedor a partir das exigências das contingências e metacontingências em vigor na comunidade


Ambiente acolhedor foi uma expressão usada por Anthony Biglan em seu livro “The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world” (Biglan, 2015). As pessoas tornam-se membros bem adequados à Sociedade quando vivem em ambientes que favorecem o desenvolvimento de comportamentos sociais positivos. Um ambiente acolhedor é o ambiente preparado para reforçar comportamentos de interesse da pessoa e do grupo. Um ambiente no qual as interações ocorrem com um mínimo de controle aversivo.

Em situações nas quais são necessárias mudanças em larga escala de práticas culturais, como naquelas que caracterizam os programas de transferência condicionada de renda, como o Programa Bolsa Família, há que se cuidar do ambiente em que vivem e viverão as pessoas que recebem os benefícios condicionais. Pois a verba do povo utilizada no programa não resultará nos objetivos propostos se depois de anos recebendo atenção à saúde e frequentando a escola com sucesso hão houver emprego adequado quando completa 18 anos e o Ensino Médio. Nem a família como um todo deixará o programa se o ambiente que promoveu a miséria não melhorar. Criar repertório sem abrir postos de trabalho é um dos maiores crimes da burocracia no serviço público.

Esses programas, e são vários, não deveriam ser considerados programas de governo – proibido ser associado ao selo do governo Zeca Promessa – mas programas de estado, permanentes, sob constante monitoramento de Agências de Controle específicas, não governamentais.

Governos anteriores deixaram planos de incentivo ao desenvolvimento de cerca de 20 microrregiões econômicas no país. Vale a pena descobrir onde estão e o que podemos dizer sobre eles.

Biglan, A. (2015). The nurture effect – how the science of human behavior can improve our lives & our world. Oakland, CA: New Harbinger Publications, Inc.





Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

Consolidação de sugestões bem-humoradas para o ensino de Análise do Comportamento.

  Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita. São frases curtas, mas compactas quanto à descrição de relações comportamento-consequência que ilustram. Geralmente usam uma experiência comum a todos os membros do grupo para prepará-los para perceber relações do mesmo tipo no futuro:

         
Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.

Ditado bom para mostrar que algumas consequências só ocorrem depois de várias tentativas, como quebrar um coco com uma pedra. No ensino de análise do comportamento pode ser usado para ilustrar os tópicos de variabilidade, momento comportamental e ressurgência. Quando a contingência (relação condicional) que mantém a estabilidade de uma relação operante-consequência é interrompida, o repertório do organismo naquela situação mostra alto nível de variabilidade, mas o operante não cessa de ocorrer. Continuará a ocorrer por mais ou menos tempo dependendo das condições que vigoravam no passado (momento comportamental). Se um novo operante for seguido pela mesma consequência, o primeiro operante cessa de ocorrer (água mole fura a pedra dura), para ressurgir se e quando houver extinção do segundo operante também (um processo conhecido na clínica como recaída).

         
Para bom entendedor, meia palavra basta.

Todo e qualquer operante envolve mais trabalho para modelar do que para manter. Modelagem é um procedimento de reforço diferencial de aproximações sucessivas da forma final desejada do operante, e isso quer dizer o seguinte: de início qualquer resposta existente no repertório que tenha alguma relação com o objetivo é reforçada. A seguir começa um treino de discriminação (reforço
diferencial), a resposta é reforçada em algumas situações mais próximas da situação final e não é reforçada quando emitida em outras situações – um procedimento semelhante àquela brincadeira de crianças do “quente” (reforço), “frio” (extinção).

 
No início, cada ocorrência da resposta exige mais esforço e leva mais tempo para acontecer; depois de completada a aprendizagem sua manutenção exige cada vez menos esforço.

Para bom “esquivador”, meia resposta basta.



         Ditados populares são antigos, alguns tão antigos que são de épocas em que a transmissão da cultura era feita apenas oralmente, não havia memória escrita.

         Longe dos olhos, longe do coração.

Muito usado antigamente para explicar porque a família mandava a mocinha estudar em colégio interno na Suíça para esquecer o namorado inadequado.

A frase chama a atenção para o poder do reforço contínuo e imediato e da proximidade geográfica e temporal de variáveis de contexto, como em situações de escolhas e decisões e de autocontrole. Um exemplo de consequência que está longe dos olhos (perder a hora de levantar no dia seguinte) mas que pode ser antecipada para perto do coração por uma resposta controladora: armar o despertador.

No caso da mocinha apaixonada, há outro ditado que explica a vantagem do primeiro: nada como um novo amor para esquecer o mais antigo.

Promessas não pagam dívidas.

Mas funcionam como estímulo reforçador, dependendo de quem promete. Grande parte da rede de interações que organiza nossa vida em comunidade é mantida pura e simplesmente por comportamento verbal, aquele que só produz ondas (sonoras).

Promessas não pagam dívidas mas mantêm a fidelidade do militante até a próxima eleição.


 “Nenhum homem é uma ilha” é uma frase que tem mais de 500 anos, de autoria de John Donne e usada por empréstimo por muitos autores. Ela resume a informação de que vivemos em comunidade e é assim que nos tornamos humanos. O processo de civilização e aculturamento do bebê leva anos e utiliza interações com centenas de outros humanos – a ponto de um antigo ditado africano dizer que é preciso uma aldeia para educar uma criança.


Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem faz parte de sua comunidade verbal selecionadora.


         Por outro lado, parece que ser de casa também traz desvantagens. Estrangeiros tendem a ser melhor tratados pelo grupo quando há interesse em que sejam atraídos. Parece que manter quem já faz arte da comunidade verbal selecionadora custa menos esforço que atrair novos membros, daí a necessidade de lhes dar mais atenção. No churrasco na casa do ferreiro o melhor espeto vai para o forasteiro; os de casa podem usar espeto de pau.



Ninguém é profeta em sua terra.

Casa de ferreiro, espeto de pau.


Quando o gato sai, os ratos fazem a festa.


Punição não funciona quando a situação sinaliza que ela não vai ocorrer. Mais ou menos o que ocorre no carnaval e nas passeatas contra o governo.

         O controle do comportamento por antecedentes e situações leva certo tempo para ocorrer. Aprendemos aos poucos a não gastar energia em situações nas quais um determinado comportamento nunca foi reforçado. Um exemplo? Com pouco mais de um ano minha filha pedia licença à cadeira que atrapalhava seu deslocamento pela sala. Aprendeu rapidamente que cadeiras e cachorros não entendiam português. Da mesma maneira aprendemos que certos comportamentos são punidos em algumas ocasiões, mas não em outras.
         Tendo aprendido depois de milhões de ano de evolução que punição é um processo complicado, desagregador, gerador de contra controle, os grupamentos humanos costumam delegar autoridade para punir a certas pessoas ou grupos. Em algumas famílias a mãe se encarrega das ameaças e o pai da guilhotina, que corta mesada, horas na internet, et.
         Se o encarregado da punição não está presente, a gandaia pode correr solta.
Quando o gato sai, os ratos fazem a festa, 
desde que ninguém seja tentado por delação premiada.



         Dizem que no princípio era o verbo. Os verdadeiros behavioristas acham que no princípio era a variabilidade. Eu pessoalmente acho que no princípio era a variabilidade, logo depois aumentada pela invenção do comportamento verbal.
            O comportamento verbal não veio só para ajudar, veio para confundir. Às vezes ajuda, mas quando você tenta entender, a confusão aumenta. Para começar, você nunca tem garantia de saber com quem está falando, com qual ouvinte ou com qual falante de cada uma das várias duplas de repertórios verbais que habitam naquele organismo. Muitas vezes, cercado de pessoas que deveriam estar prestando atenção, você descobre que só você mesmo está se ouvindo. Você convida sua mulher para jantar achando que fala com a namorada, mas quem pode estar ouvindo é a tesoureira; seu repertório adulto funciona só até as cinco, às seis e meia você está pronto para a nova série do Netflix, mas te pedem uma avaliação da situação econômica da família.
            Sem variabilidade não há evolução. O comportamento verbal está aí para não deixar a vida ficar monótona.